domingo, 4 de fevereiro de 2018

Boas histórias

Devo ser a pessoa mais desatenta que existe. Às vezes, quando me dou conta que algumas coisas passaram desapercebidas, simplesmente não consigo achar maiores explicações.

Tentar ser mais atento não é um esforço dos mais fáceis. É que na verdade, sem motivo aparente, algumas coisas parecem chamar mais atenção do que outras, mesmo que aquilo que tenha passado batido tenha valor.

Minha vó (Dona Lindaura),  já contou algumas dezenas de vezes as mais variadas histórias familiares. Algumas delas ficaram fixadas na minha cabeça, seja por completo ou aos pedaços.

A tradição da oralidade  e a transmissão de todo tipo de experiência entre os mais velhos e os mais jovens parece não ter a mesma importância em famílias de meios urbanos. Acho que as pessoas que vivem nas capitais tem uma relação de apreensão um tanto quanto distinta das famílias que são do interior. Ao menos é o que parece.

Sei lá, é que a convivência tem se tornado tão mecânica que apreender as singularidades de quem nos cerca parece ser tarefa das mais difíceis.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Diferenças

Havia uma diferença de uma de uma década entre nós.

A princípio ele veio pra tomar um lugar que sempre foi meu, por mais estúpida que essa afirmação possa parecer.

O peso do tempo talvez ajude a explicar uma porção de coisas sobre como enxergar o mundo e as suas loucas relações.

É que na verdade, os mais velhos sempre acham que sabem de todas as coisas que estão acontecendo. Às vezes até sabem, mas se comportar como se sempre soubessem não parece ser das coisas mais espertas.

Olhando racionalmente pra trás, ele sempre teve mais qualidades que eu. A começar pelo ser humano que ele era.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Um pedaço da adolescência se foi

Dolores era dona de uma voz e uma capacidade de transmitir os sentimentos como poucos artistas que conheci. Pouca gente é capaz de transportar o receptor para os seus lugares de origem fazendo-lhe sentir as características daquele local. Os The Cranberries, sem dúvidas, era uma dessas bandas capazes de fazer sentir um tipo de sentimento universal, ainda que apreendidos por pessoas distintas.
A sua doçura, o seu jeito meio desengonçado de dançar, os seus traços faciais, as suas expressões etc., fizeram dela uma das figuras mais icônicas para uma geração inteira.

A cultura pop tem dessas coisas. Ela é capaz de falar pelo todo, de expressar o sentimento geral que aquele evento ou celebridade construiu.

Esse, talvez, seja um dos grandes encantos da vida, quando encontramos pessoas que também foram tocadas por um sentimento comum à época.

O meu contato com essa voz marcante foi, provavelmente, igual ao de milhares de outras pessoas mundo à fora. Suas músicas e, especialmente, o tom adocicado da sua voz, parecia grudar nos meus sensores de modo difícil descolar-se dela. A vontade de ouvir mais e mais se tornou muito presente ao longo dos anos, de modo que as suas canções fizessem parte dos diferentes momentos da vida.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Não é apenas futebol

Durante algum tempo virou lugar comum desqualificar o futebol como se fosse apenas 22 homens correndo atrás de uma bola. O preconceito diante do esporte está diretamente associado a paixão que ele é capaz de despertar nas massas proletárias nos mais impensáveis espaços desta redoma chamada planeta terra.

Muita coisa mudou. Mesmo os setores dominantes e conservadores passaram a disputar o futebol (sua representação) como um mecanismo que está além das quatro linhas, seja nos gramados sintéticos, seja na várzea. A prova disso são as modernas arenas que enxotaram aqueles que nunca tiveram tanta grana pra pagar 30, 50,100... reais em um ingresso. Os novos estádios, visivelmente, são sinônimos da gentrificação que claramente as grandes empreiteiras e os seus dirigentes políticos optaram por dispor.

Mas o futebol pulsa e mesmo contra todos os prognósticos e todas as circunstâncias, parece responder contra a sua tentativa de domesticação gourmet. As arenas, que no primeiro momento eram símbolos de modernidade e futuro, são obrigadas a se adequar a públicos com menor poder aquisitivo. E o melhor, obrigados a aceitar as diferentes formas de torcer.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Mudanças permanentes

Eu costumava ser uma criança bastante chorona e dependente. Até o final da minha infância e entrada na problemática fase adolescente, os ambientes, estritamente não familiares, costumavam causar um grande pavor.

As mudanças quase sempre impactavam de maneira insuportável a minha forma de lidar com o mundo. Lembro claramente que todos o primeiros dias de aula eram movidos a choro. A mudança de professor, de sala, de coleguinhas, eram tão assustadoras que a única forma de expressão eram as lágrimas.


Mas o chororô durou até a primeira série do primário (hoje em dia acho que se chama primeira série do fundamental). Aquela deve ter sido a primeira vez que engoli o choro. Os olhos cheios de lágrima, muitos soluços, mas me mantive firme até o fim do primeiro dia.

Felizmente ou infelizmente, as mudanças escolares foram uma constante durante toda minha a vida. Desde sempre. Digo felizmente porque isso me proporcionou enxergar uma diversidade de coisas que talvez não pudesse enxergar, caso continuasse numa única escola. Infelizmente, pois, criar laços e amizades desde o tempo da escola sempre foi mais difícil.

As mudanças foram realmente muitas. Uma das mais importantes foi a ida para o colégio militar de salvador, situado no bairro Dendezeiros. Como foi difícil ser novato ali... (!)