domingo, 17 de setembro de 2017

Ticket Ride

Um pouco de atenção
Um pouco de maldade
Um pouco foi desejo e irresponsabilidade
Um pouco solidão

Um pouco de tudo aconteceu
Um pouco de tudo...


Não que isso importe, mas eu precisava dizer...

É claro que ela chamou a minha atenção desde a primeira vez que eu a vi. Tinha cabelos pretos longos, olhos castanhos médios (mais pra escuros), traços fortes como a sua própria personalidade.

Tom de voz altivo... e quando estava brava ficava ainda mais linda. Não que eu goste de garotas briguentas, mas ela conseguia ficar ainda mais linda.

Sotaque marcante...

Não lembro exatamente a roupa, mas acho que vestia algo preto. Como ela ficava linda nessa cor.

Dentes grandes, bem feitos, um sorriso capaz de iluminar a floresta mais inóspita dos filmes de terror.

A minha condição de forasteiro comprometido não permitiu que lhe admirasse mais. Sei lá, mecanismo de defesa pra não fazer o que não se deve. De toda forma, o convívio e conhece-la melhor, só a deixou mais linda.


É que as vezes acontece. Os detalhes do jeito tem a capacidade de deixar alguém mais ou menos interessante.

Logo ali, nos minutos iniciais em que tivemos um breve contato, fomos fazer coisas de trabalho imediatamente.

Convivemos normalmente nas semanas seguintes.

É claro, durante os afazeres, convivíamos permanentemente e isso ajudou a fortalecer algum tipo de laço emocional. Seja por amizade, afinidade, admiração, enfim, é difícil explicar mais.

Eu passei a admirá-la. Largou a sua cidade e foi arriscar a vida n´outro canto, assim como um dia eu desejava fazer.

Certa vez, pressionados pelo trabalho, conseguimos um breve êxito em uma montanha de coisas que não estavam dando muito certo.

Foi então que eu senti a sua feição mais tranquila. Vi um semblante que ainda não conhecia naquela moça. Ao nos despedirmos, me deu um abraço afetuoso que me fez senti que algo tinha mudado a partir daquele dia.

Entrou no carro. Antes de ir, disse:

- “Nos vemos amanhã”.

A noite ajudaria a digerir o que havia acontecido no trabalho.

Continuamos a nos ver quase todos os outros dias de trabalho. Com algumas exceções de viagens e tal. Mas, majoritariamente, passávamos muito tempo juntos, ainda que trabalhando.

Tinha algo a mais, mas eu não queria saber o que era.

Minto, eu queria, mas sabia que não devia.

Juro, não provoquei pra saber. Sabia que aquilo não era exatamente o certo. Afinal de contas, eu tinha toda uma vida emocional do outro lado país.

Nos dias finais da minha estadia, já não era possível evitar a aproximação. A sintonia das conversas, das músicas, dos gostos e dos lugares em comum que conhecíamos, começava a dar ao destino a história que ele queria escrever.

Ela quis dormir na minha casa. Essa época, eu dividia uma casinha com um amigo comum a nós dois.

- “Sem problemas”. Eu disse.

Conversamos os três. Vimos TV. Comemos. Falei ao telefone.

Na hora de dormir a deixei com ele na sala.

(Depois ela me contou que sentiu tanta raiva de mim que nem conseguia expressar.)

Mas eu não entendia exatamente. Ou não queria entender.

Talvez o subconsciente, com o mínimo de decência que ainda havia na minha racionalidade, preferisse me fazer agir como um bobão do que tomar as rédeas das coisas.

Até que um dia não teve jeito. Quer dizer, quase teve...

Ela insistiu pra irmos a uma boate. A mesma que havíamos ido pelo menos uma meia dúzia de vezes durante o tempo em que fiquei lá. Faltava pouco mais de uma semana para que eu tomasse o rumo de casa.

O peso das minhas responsabilidades, mesmo à distância, já estava me saturando de uma maneira cruel.

Dialogamos no carro:

Ela - “vamos”?

Eu – não sei.

Ela – vamos, baiano! Vai ser legal nos divertirmos um pouco. O “j.” também vai.

Eu – ok! Vamos!

Confesso que quando eu disse “ok! Vamos!” eu estava convencido de que não iria. Estava mentindo, acho que pra não ser o chato. As vezes não sei dizer não, ainda mais naquela insistência... ainda mais pra´quele sorriso e aqueles olhinhos castanhos que sorriam juntos com a boca.

Não consegui fugir. Ela foi me buscar em casa. E... nossa, como ela morava longe!

Me vesti, coloquei a jaqueta....fazia o frio do Alasca naqueles dias. A noite era ainda pior.

Fomos para a boate. Tocava um cover do Raimundos. Sim, acho que era Raimundos.

Sentamos na entrada. A boate era pequena. Tinha três ambientes. A entrada tinha mesas de sinuca com quadros de bandas de rock e mais à frente o bar e o espaço da banda. No fundo um espaço a céu aberto com cinzeiros para os fumantes.

Os sofás ficavam muito longe um do outro. Eu sentei e ela sentou no braço do sofá. Ela Vestia uma dessas calças leggings pretas, um monte de blusa e uma jaqueta jeans. Usava franjas, batom avermelhado e um olhar... poucas vezes vi aquele olhar se repetir na minha vida.

Ela usava um óculos de acetado em formato quadrado. Era parecido com o meu, exceto pela cor. O dela era um avermelhado escuro.

Começamos a falar de trabalho. Na verdade, eu comecei a falar de uma outra pessoa e como ela estava se saindo bem nas coisas.

Sim, pode ficar com raiva de mim. Mas era tudo que eu era capaz de dizer. Um misto de timidez, incerteza, receio...

(Depois ela me contou que pensou: “ahhh meu deus, falar disso agora?!”)

Mas na hora ela levou de boas. O papo fluiu exatamente desse jeito.

Conversa vai, conversa vem. Os dias de voltar pra casa se aproximavam.

Eu não sabia o que me esperava em casa, na volta.

Ela ficava com uns caras do trabalho, mas eu confesso que também não queria iniciar um papo que desembocasse nesse tipo de amizade. Sei lá... Tudo tem limite. Até pro meu bom mocismo que nada mais era do que um misto de covardia e timidez.

- “Vamos jogar?” Alguém disse.

Levantamos... jogamos sinuca, compramos cerveja e a música tocava. A cerveja provavelmente deu uma euforia e o relaxamento que faltava.

Não sou bom em sinuca, mas acho que aprenderia rápido se passasse umas duas semanas treinando. Ela também não, mas era esforçada.

Não lembro o resultado dos jogos.

- “Vamos fumar?” (ela disse)

Concordei. Levantamos.

A pista estava um tanto cheia e ela foi na frente segurando a minha mão.

Riamos de alguma coisa... não lembro o que...

Até que o aperto do lugar nos colocou mais próximos. Riamos. Por algum motivo fui beija-la no rosto.

Ela virou-se e o beijo foi direto na boca. Ficamos meio sem graça... quer dizer, eu fiquei.

Na parte de fora, com mais espaço e um de frente para o outro, nos olhamos.

Pensei: “e agora?”

- o que foi aquilo la dentro? (ela disse sorrindo)

Eu disse: ...

Na verdade, eu não lembro o que eu disse. Deveria ser a pessoa com mais vergonha na face da terra naquele momento.

Nos olhamos mais.

Nos beijamos pra valer. De verdade!

Bom, daí pra frente os beijos foram todos pra valer... e em todos os lugares da boate.

Já não me importa se haviam conhecidos lá.

Aliás, um deles, amigo, passou por nós ao comprar cerveja e fez um gesto do tipo... continuem.

Agora, lembro que vestia uma camisa do batman por baixo da jaqueta que, por acaso, havia comprado junto com ela em uma feirinha alguns dias antes. Só lembrei disso agora porque alguém disse na passagem algo mais ou menos...

- “Alá o batman se dando bem...”

- Prazer, meu nome é Bruce Wayne (pensei)

Ficamos grudados e tomando cerveja...

Bebemos muitas garrafas.

Eu já estava mais pra lá, do que pra cá.

A moral e a dignidade com a outra vida emocional do outro lado do país já haviam decido quase que completamente pelo ralo.

(Antes que me ache um escrotão, digo que a vida emocional que me esperava do outro lado do país fazia a mesma coisa. Aliás, soube que fazia muito mais coisas. Não que eu queira me justificar. Mas o texto é meu e eu escrevo o que eu quiser, inclusive justificativas furadas como essa.)

Pois então eu fui lá e disse pra ela:

- “vamos pra casa”?

- “vamos, mas esperaaa ai... relaxa” disse a moça.

Percebi que poderia estar passando uma imagem afoita. Disse:

- “Tudo bem”. E continuamos bebendo e nos beijando.

No sofá, na pista, nos banquinhos do bar e na área de fumantes.

Até que ficou tarde.

Poderíamos ter pego um táxi. Mas um amigo, que havia entendido toda a situação antes de mim insistiu:

- “Quando saírem, me ligue. Levo vocês em casa”.

Não curto incomodar, mas... ah, eu tava indo embora dentro de alguns dias. Em breve tudo aquilo seria passado e talvez um dia, como agora, sentaria pra escrever sobre isso.

Ele gentilmente nos buscou e nos levou pra casinha que eu estava ficando naqueles meses. Não nos beijamos no carro. Eu sentei na frente e ela atrás.

Não lembro se eu sabia ou não se o meu companheiro de casa não iria estar lá.

O certo é que ele não estava.

Chegamos. Estava frio.

Entramos em casa.

Estávamos a sós.

Fomos para o quarto.

Estava frio pacarai.

Trocamos de roupa entre beijos, abraços e braços mal colocados em blusas.

Ela usava uma calcinha preta de renda. Foi a primeira que eu a vi seminua. Tinha peitos médios lindos.

Era quase da minha altura, um pouco mais baixa. Magra e um corpo bonito. Não era adepta a academia nem nada dessas coisas. Mas a genética era das boas. Simplesmente não fazia esforço pra ser linda.

Sabe, né?! Tem gente que não faz esforço nenhum pra ser bonita. Simplesmente é.

Linda! Sem palavras.

Tinha ainda umas duas tatuagens no corpo.

Em meio a muitos beijos, carinhos e frio, ficamos próximos.

E eis que ela me diz a coisa mais sensual que eu já ouvi em toda a minha vida.

(repito: estava muito frio.)

Ela aproximou-se do meu ouvido e meio sussurrando, com aquele sotaque absolutamente encantador, disse:

- “Como é que tu quer?”

Meu coração acelerou, minha pupila dilatou e os pelos do meu braço ficaram mais arrepiados do que o cabelo de um punk dos anos 70/80.

Beijei-a por inteiro.

Ela deitou-se.

Nos cobrimos, porque estava muito frio (e é importante dizer que estava frio)

A cama fazia muito barulho. A moça tinha uns TOCs. Ela reclamou do barulho da cama. Mas, continuamos.

Não foi lá essas coisas. Acredito que pra ela também não.

Ahh, mas o dia seguinte... os dias seguintes...

Já nos beijávamos publicamente. Ainda que com um pouco de receio.

Continuamos a trabalhar juntos.

Uma das vezes fomos ao bar e depois pra casa dela. Era uma sexta. Ficamos umas 72 horas numa cama praticando todos os tipos de amor.

Com força, com jeito, com carinho, devagar, por cima, por baixo, de ladinho com beijos no pescoço e no ouvido...

Entre comidinhas, bebidinhas, dormidinhas etc... faltamos o trabalho.

Sumimos.

Ela tinha aula na segunda pela manhã, mas ao acordar... fizemos mais amor e dormimos até as duas da tarde.

Só voltei pra casa na terça pela manhã.

Que maluquice!

Recebia mensagens desaforadas... mas, depois o celular descarregou e não tinha como carregar.
Por um lado eu pensava: “o mundo deve estar acabando”. Por outro ela sorria e aquilo era de um conforto como jamais imaginei que pudesse sentir. Era tudo diferente.

Como pode? Meses trabalhando juntos e nunca havia acontecido absolutamente nada. Pelo menos de contato. Olhares, sorrisos, vontades sim, mas fisicamente, contato nada.... nadinha.

(Os amigos diziam que me dariam um troféu por ter ficado tanto tempo num lugar e não ter me relacionado com ninguém. Na minha cabeça isso era uma obrigação. Nunca havia feito isso antes. Na verdade, nem dava a oportunidade disso acontecer.)

Mas, o sexo...o sexo... em todos os lugares e de quase todas as formas que possa imaginar.

As trilhas sonoras vem à mente as vezes. Algumas foram ressignificadas por outras vivências.

Fizemos várias coisas.

Fomos ao restaurante vegetariano (não contei, mas ela era vegetariana), aos banquinhos de balançar da faculdade em que ela estudava. Fomos a uma festa típica da cidade. Fomos a bares. Andamos de mãos dadas pela rua a noite. Jantamos em bares. Ela fez lasanha. Eu fiz pipoca. Conversamos sobre tudo, ou quase tudo. Falávamos de música, de política, de artes, de textos...

Ela me encheu de presentes com coisas que havia trabalhado no passado. Alguns muito especiais.

Acontece... a vida sempre segue, não importa como. Não interessa se a sua vontade é parar o tempo. Ele não vai parar. Por mais que você ache que pode, ou pode controla-lo. Ele é quem controla. E costuma atropelar quem acha que pode contê-lo.

Mas eu iria embora.

Durante esses dias ela falou várias coisas que eu era incapaz de interpretar. Nunca fui das figuras mais inteligentes. Não sou.

Não conversávamos sobre o futuro. O que seria depois. Ate que ela disse:

- “vem morar comigo”!

É claro que aquilo me chocou no momento.

É claro que seria incrível. Mas seria impossível tomar uma decisão daquelas, ainda que parte de mim quisesse simplesmente jogar tudo pra cima e ficar de vez.

Algo me esperava e eu disse pra ela:

- “Eu não tenho dúvidas de que eu vou voltar, só não sei como, mas irei”.

No último dia da minha estadia ela quis ficar lá em casa. Meu amigo de divisão do apartamento, também era amigo de trabalho e não aceitou muito bem aquela situação. Pra completar ele havia tentado algo quando ela dormiu lá em casa pela primeira vez.

Ela foi, com a mochilinha cinza. Bebemos a minha despedida com amigos e ela foi lá pra casa.

Àquela altura, todo mundo já sabia o que estava rolando entre nós, pro meu terror. Mas também não fiz maiores esforços pra esconder. Simplesmente deixei acontecer.

Quando chegamos em casa não tinha nem muito clima pra sexo. E claro, estava frio.

Ela quis tirar uma foto e me perguntou:

- “Posso tirar uma foto nossa?”

Fiz um ar negativo de dúvida.

Imediatamente ela desistiu.

Sim, me arrependo... só me arrependo. Me arrependerei enquanto a minha memória lembrar disso.

Como eu disse, não havia clima pra sexo e estava frio. Colocamos um colchão de solteiros na sala, ficamos abraçados. Entre um beijinho e outro o frio simplesmente se dissipou e veio um calor... daqueles verões abafados...

Freneticamente, nos entrelaçamos sexual, espiritual, psicologicamente como poucas vezes alguém consegue se conectar a outra pessoa. Foi assim durante boa parte da madrugada e quando finalmente não aguentávamos mais, dormimos. O meu voo era no final da manhã ou no inicio da tarde, não lembro bem.

Viajaria um dia inteiro com aquilo na cabeça.

Quando estava terminando de arrumar as mochilas, ela sentou-se a mesa do lado de fora da casa. Tinha um olhar tão melancólico. Jamais irei esquecer dessa cena.

Ela usava uma dessas calças folgadonas e balançava as pernas que não conseguiam tocar o chão.

Engraçado que certa vez, bêbados, ela disse:

- “Quero fazer amor em cima daquela mesa”.

Bom, isso nunca aconteceu.

Comecei a me preparar psicologicamente para o que me esperava.

Ela colocou uma música dos Beatles em uma rede social. “Ticket ride”.

Você sabe o que o refrão diz? 

Hum?!

Sabe?! ...

O refrão diz:

- “Ela tem uma passagem para ir embora”...

Nossa, doeu!

Mas o refrão era, talvez, a coisa mais leve dessa música para a situação que nos encontrávamos.

“I think i´m gonna be sad”

“I think it´s today”

“She ought to thing twice”

“But she don´t care”

Bom, a carona chegou. Era hora de partir. Perguntei se ela queria ir no aeroporto comigo.

- “Odeio despedidas”, me disse.

Demos um longo abraço e nos despedimos, afinal de contas “She´s (me) got a ticket ride”.

...

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